terça-feira, 1 de janeiro de 2008

THE BUBBLE

Tocante e cruelmente verdadeiro. Assim pode ser definido THE BUBBLE, longa dirigido pelo israelense Eytan Fox, o mesmo de YOSSI & JAGGER (que, no Brasil, recebeu o absurdo título DELICADA RELAÇÃO). O filme é um "Romeu e Julieta" gay entre um morador de Tel Aviv e um palestino que está ilegalmente na cidade israelita. Os dois se apaixonam quase que instantaneamente, mas a relação entre eles tem tudo para não dar certo: a distância geográfica, os conflitos políticos e religiosos, a pressão familiar, as rígidas regras da sociedade. O modo como cada um irá tentar e conseguir - ou não - superar estas dificuldades é que faz desta jornada cinematográfica uma experiência tão gratificante.

Tel Aviv é conhecida como "A Bolha" justamente por sua habilidade de reproduzir entre seus habitantes uma vida minimamente normal, mesmo estando situada bem no centro de um verdadeiro caos político-religioso-social. E bem no meio deste "universo paralelo" moram juntos, no mesmo apartamento, Noam (Ohad Knoller, de DELICADA RELAÇÃO), um vendedor de discos, Yelli (Alon Friedman), que ganha a vida como gerente de um café, e Lulu (Daniela Virtzer), vendedora de cosméticos. A história começa no último dia de serviço militar de Noam, quando ele encontra, pela primeira vez, Ashraf (Yousef "Joe" Sweid), um rapaz que tentava cruzar a fronteira. Já em casa, feliz por estar de volta ao lado dos amigos, é surpreendido quando bate a sua porta justamente Ashraf, que está à procura de um lugar para ficar. Os dois acabam conversando, se entendendo, e o que começou como um flerte se transforma num abrigo político, para só depois virar romance.

O mais interessante em THE BUBBLE é como, apesar da aparente previsibilidade da trama, somos impactados com cada nova situação do enredo. E também com a capacidade do diretor em combinar, de forma tão delicada, extremos até então inconcebíveis: guerra e amor gay, protesto e Bebel Gilberto (a cantora brasileira é constante na trilha sonora), respeito às tradições e raves com música eletrônica, a vida num grande e moderno centro urbano com costumes históricos. E o maior mérito aqui são os próprios personagens, todos dotados de vida, sentimentalmente profundos, verossímeis em suas intenções e iniciativas. Os diálogos soam naturais e envolventes, conduzindo o espectador ao lado dos acontecimentos, que deste modo adquirem nova importância diante nossos olhos.

THE BUBBLE é um filme que, mais do que assistido e reverenciado, merece ser sentido, da forma mais íntima que a expressão pode ter. E se o final incomoda, é justamente por ser absurdamente real. Não é um romance hollywoodiano de conto de fadas e cor de rosa - é, sim, o amor duro e contemporâneo, que surge mesmo nas condições mais improváveis, e que apesar de tudo luta para encontrar seus meios de expressão. Mesmo que estes não sejam os mais razoáveis, são, porém, os únicos naquele horizonte. E se merecem ser alterados, cabe a cada um a responsabilidade pelo mundo em que vivemos e pelo estado em que ele se encontra. Afinal, intolerância não é explicitada só em grandes atos ou decisões, mas principalmente dentro de nossas casas, no calor da cama e quando estamos mais entregues do que nunca. Justamente quando somos mais verdadeiros.

The Bubble, Israel, 2006
(nota 8,5)





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